Por não estarem distraídos



Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos,a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a
graça, mas as águas são uma beleza de escuras –e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles.
Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas.
Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso.
Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham.
Tudo porque quiseram dar um nome;porque quiseram ser, eles que eram.
Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
Tudo,tudo por não estarem mais distraídos.

(LISPECTOR, Clarice. Para não esquecer. São Paulo: Siciliano, 1992)


Lembro até hoje quando li Clarice pela primeira vez , era uma tarde linda daquelas bem primaveris, se é que essa palavra existe.Agora não sei se são invenções à la Godard ou se isso realmente aconteu.Só sei que em minha memória eu achei uns livros no pé da poltrona, e um deles era Clarice,mais exatamente Para não esquecer.Paixão mais que imediata.

Clarice,acho que não preciso falar mais nada.

2 comentários:

Akemi disse...

Nesse clima lispectoriano, deixo uma enorme delicadeza pra você:

"- Mamãe vi um filhote de furacão, mas tão filhotinho ainda, tão pequeno ainda, que só fazia mesmo era rodar bem de leve umas três folhinhas na esquina..."

Está no "Para não esquecer" também.

Akemi disse...

Vontade de comentar de novo:

Quando eu li Clarice pela primeira vez era uma tarde chata dessas abafadas, pela qual eu me arrastava cheia de um sono patético de recém-adolescente. Sentei no sofá da sala, fui escorregando por ele até acabar deitada. "Laços de Família" pedia xingamentos milhões, dormi por diversas vezes no colo de Clarice, como se dorme no colo de mãe, depois de muitos esperneamentos...

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