Uma tatuagem.
Foi isso que me chamou a atenção.
Era uma daquelas grandes,cobria seu braço por inteiro e parte do ombro.
Foi por isso que olhei.
Será?
Hoje,e somente hoje percebi como é grande a dor do fim,e antes fosse o meu fim de algo.Só pude perceber isso vendo o fim dos outros.É incrível o que se passa quando o NÃO é dito.
Não,palavra temida.
Será que pelo fim ser do outro que pude compreender?
Hoje vi a carta de amor de uma amiga minha e só com ela pude entender como é doloroso acabar um relacionamento.Mesmo quando se sabe que o melhor é o término.
Para alguns ele nada diz
Para outros é confusão
Para os loucos, vestígios de nada
Para os poetas, apenas as marcas de fria solidão
Ausência tão fria em palavras
Larvas se levantam em jazigos frios
Mortos calados vagueiam em vida ausente
Ausência de um corpo febril
Torna-se manso e apaziguador o lugar
Nada se fala, tudo se cala
O sono se embala e a vida é interrompida
Os sonhos são apenas imagens, é mudo o seu representar
Sentimento que não se fala
Talvez não seja o amor que se pensa dar
Sentimento pronunciado, falado
Mínimo e pequeno como a representatividade de um grão de areia no mar
"...e o filme batalhava, contra a sensação de acariciar levemente a ponta dos seus cabelos, pela sua atenção.
Ali, como quase sempre, ela sentia falta do mar... "
-Qual o caminho certo da vida que só se constroi a partir de desilusões?
-Não tem, só sei que a sua vida não é assim.
-Como não?
-Você tem amor demais dentro dela.
Cansei de escrever pequeno.
Mãe,me ensina a escrever grande?
"C'est pas un roman.C'est la vie.Un film c'est la vie."
Jean-Luc Godard
Maria, espia
Beba mais um pouco
Fume outros tantos
Esse santo tanto quanto voa cai
No chão
Mesmo sendo tarde
Uma dor demora
Uma hora agora é hora de largar
No chão
Maria, espia só
Havia, apenas pó
E como pode pó seguir adiante?
Uma montanha? Um monte? Um monte de ti?
E como pode um sopro
Um do teu nariz
Maria, espirra e só
Abre a janela
Pinta sobre a tela
Essa leva leva reza de sobrar
No chão
Quem não sabe grita
E quem sabe grita
Eis que a Chita, a Guita levita bem mais
Do chão
Maria, espia só
É tinta, poeira e pó
[ Tibério Azul ]
Ás vezes quando esconde o que lhe aflige através de risos ela se transporta para um mundo dela, onde a realidade não lhe afeta .
E o que acontece nesse mundo é tão real, tão lúcido, que ela passa a acreditar em tudo.
Foi a partir daí que a realidade se misturou com a ilusão.
Foi quando ela perdeu a agulha do fio da linha da vida.
Eu persigo o que falta,não o que sobra.
E quando eu encontrar?
Eu estava rígido e frio, era uma ponte, estendido sobre um abismo. As pontas dos pés cravadas deste lado, do outro as mãos, eu me prendia firme com os dentes na argila quebradiça. As abas do meu casaco flutuavam pelos meus lados. Na profundeza fazia ruído o gelado riacho de trutas. Nenhum turista se perdia naquela altura intransitável, a ponte ainda não estava assinalada nos mapas. - Assim eu estava estendido e esperava; tinha de esperar. Uma vez erguida, nenhuma ponte pode deixar de ser ponte sem desabar.
Certa vez, era pelo anoitecer - o primeiro, o milésimo, não sei - meus pensamentos se moviam sempre em confusão e sempre em círculo. Pelo anoitecer no verão, o riacho sussurrava mais escuro - foi então que ouvi o passo de um homem! Vinha em direção a mim, a mim. - Estenda-se, ponte, fique em posição, viga sem corrimão, segure aquele que lhe foi confiado. Compense, sem deixar vestígio, a insegurança do seu passo, mas, se ele oscilar, faça-se conhecer e como um deus da montanha atire-o à terra firme.
Ele veio; com a ponta de ferro da bengala deu umas batidas em mim, depois levantou com ela as abas do meu casaco e as pôs em ordem em cima de mim. Passou a ponta por meu cabelo cerrado e provavelmente olhando com ferocidade em torno deixou-a ficar ali longo tempo. Mas depois - eu estava justamente seguindo-o em sonho por montanha e vale - ele saltou com os dois pés sobre o meio do meu corpo. Estremeci numa dor atroz, sem compreender nada. Quem era? Uma criança? Um sonho? Um salteador de estrada? Um suicida? Um tentador? Um destruidor? E virei-me para vê-lo. - Uma ponte que dá voltas! Eu ainda não tinha me virado e já estava caindo, desabei, já estava rasgado e trespassado pelos cascalhos afiados, que sempre me haviam fitado tão pacificamente da água enfurecida.
Franz Kafka

I
E se eu lhe dissesse que toda aquela graça do mundo se foi?
E que tudo ficou meio blue,que o cinzeiro transbordou e o whisky acabou?
Se lhe contasse que a grande beleza está aí:
Nessa tristeza que chora mansinho dentro do homem?
Que Joni Mitchell nunca esteve tão certa,tão certa,tão amável na vitrola?
E se eu lhe dissesse que o importante não é ser feliz e sim...viver?
E se eu lhe dissesse que hoje,e apenas hoje,menti pra você do início desse texto até aqui,sua última linha?
Por que hoje,e não apenas hoje,me senti com uma felicidade plácidamente ab-so-lu-ta.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a
graça, mas as águas são uma beleza de escuras –e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles.
Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas.
Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso.
Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham.
Tudo porque quiseram dar um nome;porque quiseram ser, eles que eram.
Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
Tudo,tudo por não estarem mais distraídos.
(LISPECTOR, Clarice. Para não esquecer. São Paulo: Siciliano, 1992)
Lembro até hoje quando li Clarice pela primeira vez , era uma tarde linda daquelas bem primaveris, se é que essa palavra existe.Agora não sei se são invenções à la Godard ou se isso realmente aconteu.Só sei que em minha memória eu achei uns livros no pé da poltrona, e um deles era Clarice,mais exatamente Para não esquecer.Paixão mais que imediata.
Clarice,acho que não preciso falar mais nada.
Achei meus cadernos/diários de 14 e 15 anos,lendo aquilo tudo achei algumas coisas interessantes.Talvez,seja importante ver o quanto mudamos e quanta coisa precisa mudar.
O dólar continua em alta,ainda escrevo coisas sem nexo e a paixão por cinema só aumentou.
Enfim,voltei pra tudo isso,quem sabe dá certo?

